Já passava das dez e a alguém batia na porta. Levantei-me no
susto e com todo cuidado sai na ponta dos pés para não pisar em algo frágil. Abri
a porta e vi o espanto no rosto daquela pessoa ao notar a bagunça, olhei pra
trás e não entendia porque o quarto se encontrava naquele estado, mas fingi saber
e pedi para não reparar na zona.
Ela me questionará o que havia acontecido e respondi que
procurava algo e não o encontrei. Ela me disse para arrumar e tomar cuidado com
as fotos. Fotos foi a palavra chave para tentar entender o que havia
acontecido. Observei que haviam fotos, cartas, bilhetinhos e cds com vídeos de
dias felizes com uma pessoa.
Percebi que na noite passada estava vivenciando um saudosismo
à base do álcool, corri pro celular para verificar se não tive a estupida ideia
de ligar ou mandar mensagens. Um homem quando fragilizado por sentimentos e
bebida tem forte tendência a cometer besteira.
Na caixa de saída apenas uma mensagem dizia “saudades de você”.
Parei para olhar ao redor e vi a trajetória de longos anos. Sentei na cama e
sem saber por onde começar, só me restou chorar. Chorei a medida que fui
juntando tudo em uma caixa.
Depois que arrumei o caixão sentimental, chegou uma mensagem:
“Também sinto sua falta, falta de nossas conversas e risadas. Soube que tem um
novo amor e tenho certeza que ela te fará feliz assim como me fez. Obrigado por
tudo e saiba que sempre vou te amar. Um beijo e até um dia. Estou indo embora
na próxima semana, gostaria de te encontrar
e me despedir”.
Jamais gostei de três coisas, elogios demais, depende dos
outros e o sentimento de despedida. Eu sabia que se tratava de uma partida,
fique sabendo que ela iria casar e morar com o marido em outro Estado, ele era
um novo concursa.
Encontramo-nos para conversar na companhia de uma xícara de
café, ela me falou do que aconteceu nos últimos dois anos e eu dos meus. Ela me
perguntou o que acontecia que eu expressava uma certa tristeza no olhar. Não pude
esconder e disse que continuava a ama-la. Ela segurou em minhas mãos e disse
que também sentia o mesmo, mas era noiva de fato e da palavra e que não poderia
voltar atrás.
Como que num ultimo ato de misericórdia, ela me tira da bolsa
um convite, convite de seu casamento que ocorrerá no próximo dia doze de
dezembro às quatro da tarde no clube das tradições londrinas. Ela gostaria que
eu me fizesse presente. Sorri e até disse que faria uma força. Nos despedimos e
saímos em direção dos carros.
O dela se encontrava mais adiante e ao entrar no carro, sai
rapidamente atrás dela, segurei em sua mão e agradeci mais uma vez por tudo. Coloquei
o convite em sua mão e disse que não teria coragem. Nem no da minha melhor
amiga iria por questões de distanciamento e não iria destruir o restante do que
havia por ela, mas desejava que fosse feliz.
Ela me deu um longo abraço, nos beijamos enquanto ambos chorávamos.
Cada beijo parecia uma assinatura em um contrato de destrato. O ultimo foi o
mais longo e doloroso. Ali nos despedimos e quem sabe um dia a gente volte a se
vê. Desses quase vinte anos eu só consegui dizer “ Obrigado meu amor, obrigado
Karen e toda a felicidade nessa nova vida”.
Algumas coisas precisam de um ponto final, por mais doloroso
que seja.

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