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Tá tudo bem mãe

Hoje estava mexendo nos meus arquivos e vivenciei quase que uma cena de cinema, onde um álbum de fotografia aleatório caiu no meu pé e recordei de um evento que participei do Rotary Club.

Recordei dos amigos que fiz, das conversas, dos aprendizados e das experiências de vida. O ano era dois mil e cinco, onde estava como presidente do Interact Club – Adonay Barbosa dos Santos, clube formado por jovens de quatorze a dezoito anos. E que acontecia anualmente a conferencia distrital, momento em que todos os clubes de jovens e Rotary se reúnem em um estado da Amazônia.

Nesse tempo, meus pais é que mantinham a casa com a venda dos salgados na cantina do colégio acreano. Eu apenas comentei com eles sobre o evento por comentar, pois achava um barato a filosofia da entidade e algumas pessoas que conheci. Meu pai perguntou quando seria e quanto seria. Eu disse que era caro e que não iria.

No mesmo dia encontrei o Roberto Feres, que na época era presidente de um dos Rotary padrinhos do Interact e me perguntou se iria. Respondi que não porque era caro e não ia pedir aos meus pais. Ele perguntou se eu queria ir e respondi que sim, mas que numa outra oportunidade iria. Ele ligou paro o Ricardo Araújo, que na época era secretário ou tesoureiro do clube, que pegou meus dados. O Roberto riu e disse: “Vitinho, arrume suas malas, que o Rotary vai pagar sua passagem”. Como fiquei contente. Corri e falei pros meus pais.

Meus velhos se apertaram um pouco e se esforçaram bastante na venda das coisas, mas separaram mil reais. Esse valor naquela época era um valor absurdo para alguém da minha idade e sem uma renda própria. Nunca gostei de pedir nada pros meus pais, além do que eles me proporcionavam, pois sempre soube das nossas condições de vida.

Minha mãe me “emperiquetou” todos, milhões de recomendações e foi com meu pai me deixar no aeroporto naquela pampinha vermelha. Nesse tempo os carros não eram cabine estendida, minhas opções era andarmos os quatro (minha irmã também) ou eu ir na carroceria. Um casal de rotarianos, Ruth e Alex, me conhecia das reuniões e ouvi as recomendações da mãe, e sem me conhecerem melhor, se prontificaram a cuidar de mim. Um certo alivio pra mãe.

Chegando lá em Belém, havia reservado quartos pros jovens e me encaminhei pra lá, até para não incomodar o casal. E um dos rapazes de outro clube achou “desconfortável’ o alojamento em um hotel quatro estrelas, que nos deram, me chamou para dividirmos o quarto que tinha duas camas. Aceitei, pois eu era um ser extremamente tímido e por estar no meio do povo que ia pra farra e na volta ia demorar para dormir, não daria certo porque meu foco lá era aprender e fazer valer a passagem.

Participei de toda a programação destinada aos jovens. Meu colega gastou o que tinha e o que não podia. Ainda emprestei cem reais. Minha despesa era só o almoço e janta, porque tomava café no hotel. Na minha santa inocência, tirei o dinheiro na frente dele. Dormi e a noite ele me acordou para jantarmos, ele iria pagar. Fui me achando todo importante, conquistando o mundo e amigos. Jantei duas pizzas e um refrigerante na lanchonete em frente ao hotel. Ele disse que tinha que voltar logo, pois iria arrumar as coisas, o voo dele era naquela noite. Nos despedimos e desci para as palestras.

Quando cheguei na palestra, haviam mudado a programação e acabaria com dois dias de antecedência, pois haviam avançado nos debates. Subi para o quarto para buscar minha carteira, pois a turma do Acre estava indo na casa das sete janelas, um ponto turístico dela. Achei minha carteira no chão e sem nenhum centavo, o “amigo” levou todo meu dinheiro, o desespero bateu e a vontade de chorar veio no gogo. Engoli o choro e desci para avisar que não iria, pois estava com dor de cabeça. Pedi a recepção para saber o cardápio do jantar para descontarem na minha conta. Outra surpresa, o canalha me deu de presente uma conta no valor de novecentos reais. Pedi para ligar pra casa, falei com meus pais que estavam curiosos em saber como estava lá, minha primeira grande viagem pra fora de casa. Falei sustentando um sorriso no rosto para não da brecha de saberem que eu estava fodido. Quando minha mãe perguntou se estava precisando de dinheiro, a voz embargou e disse:’ tá tudo bem mãe!”. Ainda insistiu umas três vezes e já chorando só pude responder que o choro era de saudade.

Corri na organização do evento e pedi para vender os cds com as palestras do evento, recolhi os pendrive e juntei tudo em um cd. Mas como gravar se nem computador tinha? Corri na gerencia do hotel e pedi para usar o computador para hospedes e gravei. Vendi cerca de oitocentos cds, o valor pagava parte do presente de grego. Em outra sala estava ocorrendo um evento do Lions e tive a mesma ideia e vendi uns seiscentos cds de palestras. O valor arrecadado com a venda pagou a “surpresinha” e os outros três dias que eu ainda iria ficar lá. Mas e a alimentação? As frutas do café eram meu almoço e os trinta reais que me restaram, negociei com o dono daquela lanchonete da frente.

Deus é tão bom comigo, que no outro dia tinha um simpósio de medicina e um encontro da maçonaria, e vamos pedir para vender cds, não deixaram. Meio chateado volto para o quarto e no elevador encontro uma tia minha, que estava na cidade para um encontro das filiais da Granero. Me chamou para jantar, expliquei tudo, me presenteou com trezentos e me chamou para irmos ao teatro. Nossa, que alivio, paguei tudo, sobrou dinheiro e ia pra cassa tranquilo.

Como pais que se viravam para manter dois filhos com a venda na cantina, como que eu ia preocupa-los ainda mais e tão longe. Aprendi com isso a me virar e a usar a cabeça. Do nada fiz meu tudo. Compartilho minha história com você para tentar demonstrar que a gente não pode se desanimar ou desesperar com as peças que a vida anos dá. Depois de anos, contei a história pros meus pais e já um homem feito, apanhei (meu pai deu umas palmadas na bunda), minha mãe uns puxões de orelha e o casal de amigos (Ruth e Alex) me deram outros puxões porque não contei nada na época.


Prazer, Victor Augusto, 37 anos, acreano, jornalista e académico de direito. Por isso, criei este espaço onde compartilho minhas experiências e aprendizados. Afinal, acredito que conhecimento deve ser diário para nossa evolução. Por aqui, abordo assuntos sobre estilo de vida, com ênfase em levar uma vida baseada na informação, já que é minha área de formação e atuação.

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