Acredito que poucas vezes chamei meu pai - Manoel Coelho de Farias - de pai. Em minha memória sempre tratei ele como um dos meus maiores ídolos e exemplo, por isso sempre o chamei carinhosamente de paizão.
Em um mundo tão complexo e que vai dificultando com o passar
do tempo, fui alguém de muita sorte em poder crescer em um lar amoroso, com um
pai que se doava por inteiro para ajudar aos pais, irmãos para se formarem e
manter uma família.
Carrego diversos momentos bons com meu pai. Quando vinha me
acordar pela manhã cumpria um ritual. Primeiro desligava o ar-condicionado e
com um beijo na testa me alertava que era hora de acordar. Mesmo sendo um jovem
bem chatinho e rabugento, meu pai era meu maior parceiro. Nas raras noites que
ia para uma festa do pessoal da escola, ele me deixava e quase que cronometrado
já estava na frente do lugar conforme combinamos.
Quando comecei a trabalhar foi em uma das maiores emissoras e
no jornal impresso de maior relevância. Pela manhã ficava no jornal e a tarde
entrava na tv. veículos de comunicação nunca respeitaram carga horária e sempre
fui comprometido em finalizar o que era de minha responsabilidade pelo exemplo
que tinha em casa pelo paizão e pela mãe.
Meu horário de entrada na emissora era às 17h e a saída
deveria ser às 22h. quase sempre terminava a meia noite devido esperar a
geração de material das outras praças para garantir o fechamento inédito do
jornal que iria ao ar na manhã seguinte. E quem estava na frente da tv desde
cedo me esperando? O meu paizão.
Sempre fomos muito ligados e próximos. Até no momento mais crítico
da sua doença e complicações de saúde, onde eu precisei tirar forçar de onde
jamais imaginei ter, acalmar minha família e o médico que o atendia durante a emergência.
Com sua morte me tomei por uma enorme tristeza.
Após dois anos de sua partida, que até hoje parece que ele
foi ali e a qualquer momento vai chegar. Nascia o segundo Manoel da casa, o meu
sobrinho. Durante toda a gestação da minha irmã, arenguei tanto com ela que o
menino nasceu praticamente a minha cara.
Próximo a completar seus dois anos de idade, os pais no meu
sobrinho se separaram. Manoelzinho estava em uma creche e vivenciaria seu
primeiro dia dos pais com outras famílias. Por birra do pai dele, numa
tentativa infantil de medir forçar com a minha irmã, disse que não iria
participar do evento e não foi. Como minha irmã estava no trabalho e também não
poderia ir, sobrou para a avó e para mim.
Quando chegamos na creche, minha mãe pediu para busca-lo
enquanto ajeitava a bolsa com a mamadeira. Ao entrar na sala com os pais e seus
filhos no colo, avistei o Manoelzinho desesperado como quem procura um rosto
amigo enquanto se sentia deslocado. Como em um filme, ao abrirem caminho ele me
viu e fez sinais de que queria meu colo.
Quando o peguei da professora, ele me abraçou tão forte que
parecia que havia entendido o sentimento dele como se fosse de abandono. Nem mesmo
quando viu minha mãe para tomar a mamadeira ele quis me largar. Daquele dia em
diante eu me apaixonei por aquela vida!
Nunca escondemos dele que ele tem pai. Mesmo quando o pai
dele só o procura para fazer média para as namoradas ou esposa de momento. Assumi
o papel que me foi colocado desde os dois anos de idade dele. Troquei fraudas
sem reclamar, aprendi a fazer o mingau do jeito que ele gosta, aprendi a da
banho, arrumar para a escola e assim por diante.
Chorei na primeira apresentação de colégio dele, copiosamente
a ponto de soluçar pela emoção de como se eu tivesse gerado aquela vida e meu
pai estivesse do lado assistindo a tudo. Mais recente ele foi participar do
show de talentos do Meta e quando um coleguinha me confundiu com o pai de
outro, ele rapidamente o corrigiu com um notório e altivo “não, ele é meu pai!”.
Fiquei todo beste e ainda estou, por isso compartilho com você por meio desse
artigo.
Victor Augusto N. de Farias é jornalista, radialista, rotariano, membro do Conselho
Municipal de Turismo, membro da Academia Rotaria Acreana e acadêmico de direito.

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